terça-feira, 26 de outubro de 2010

Alexandre O'Neill

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!



Alexandre O'Neill
Poesias Completas. 1951-1986
Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)




Hoje ouvi uma música espectacular com a letra deste poema, infelizmente não encontro na net. Acho que foi composta por Mário Laginha. E quem cantavam era uns jovens de apelido Silva, salvo erro. Espero voltar a ouvi-la!

(Ah. E agora lembrei-me... Parece que a obra de Fernando Pessoa está todinha em formato digital na página da Casa Fernando Pessoa.)

Sem comentários:

Enviar um comentário